Toda semana um artigo novo sobre música.

Segunda-feira, Maio 07, 2007 Comments:

Se faltasse...

...O Flamengo no mundo! Certamente, eu teria um desgosto profundo. O que seria de mim sem o Flamengo, uma das minhas grandes paixões. Tenho certeza de que qualquer pessoa tem as suas... Mas nunca fui tradicionalmente um torcedor de Maracanã. Fui algumas vezes quando criança, mais algumas na adolescência e, quando já estava tomando gosto por tudo aquilo, por aquela bagunça saudável... Desisti!
A violência afastou-me do estádio aos domingos. Lembro-me como se fosse hoje. O ano era 1995. Mais especificamente dezembro. Final da agora extinta Supercopa dos Campeões da Libertadores: Flamengo x Independiente. O time argentino havia vencido a partida de ida em casa por 2 x 0 e agora o nosso mengão precisava ganhar pelo mesmo número de gols.
Foi um dia especial para mim, por diversas razões. Recebi um telefonem que, para o bem e para o mal, mudaria minha vida de forma radical e sem volta... Mas, além disso, estava com meu grande amigo Roberto Vinícius. Caramba, há quanto tempo!!! Fui um adolescente muito feliz. Quase não tinha do que reclamar e, em uma fase da vida onde muitos têm dificuldade em se aceitar como indivíduos, eu achava tudo o máximo. Gostava das meninas e daquela leve sensação de descoberta, quando não se sabe quase nada e tudo que acontece passa a ser uma novidade estrondosa. Adorava dançar nas discotecas do Tijuca Tênis Clube, aos domingos, ou do Imperator, no méier; além das maravilhosas matinês do Resumo da Ópera, na Lagoa, do Reggae Rock Café, em São Conrado, ou do Well`s Fargo, no Leblon. Nesta última, a presença do D.J. Marlboro já se fazia notar. 1993, 94, 95, 96... E lá se foram os anos, escorrendo como grãos de areia e deixando uma sensação gostosa por entre os dedos da alma.
Mas o que importa neste artigo é aquela tarde de dezembro, um dia de semana (quarta-feira, muito provavelmente), quando Vinny Boy chegou lá em casa. Éramos amigos de farra, daqueles que arranjam uma festa diferente a cada sábado. E quando não havia nenhuma de amigos conhecidos, saíamos sem destino e penetrávamos nas festas das vizinhanças. Se algum dia eu resolver contar nossas histórias, renderia um bom livro... O fato é que chegamos cedo ao Maraca, infestado de rubro-negros desde a entrada. A capacidade do estádio naquela época já não era a inicial. Algumas reformas reduziram a capacidade do Maraca para cerca de 100.000 torcedores. Eram tantos flamenguistas querendo entrar para apoiar o time na final, que a polícia teve que abrir os portões do estádio Mário Filho, deixando que todos entrassem de graça! Nem precisei mostrar o meu ingresso. O pai do Vinícius, que estava com a gente, resolveu voltar para casa, temendo o pior.
Apesar do tumulto para entrar, éramos jovens e intrépidos, tínhamos um time com retrospecto irretocável na competição (antes das finais, o Flamengo havia jogado seis vezes e vencido todas), o melhor jogador do mundo no ano anterior jogava com a nossa camisa (ele mesmo, Romário) e era jogo de um time só. Não haveria tumulto com a torcida adversária, pois o anel do Maracanã estava todo tomado pelo vermelho-e-preto.
Durante o jogo, quase brigamos com alguns torcedores do nosso próprio time, pois não havia espaço entre as pessoas na arquibancada e os ânimos estavam exaltados. Mas a paz se fez por completo quando o baixinho de pés mágicos marcou o único gol da partida, a nossa favor. Foi uma experiência religiosa... De repente, estávamos todos nos abraçando: brancos, negros, ricos, pobres, velhos, novos. Éramos realmente uma só massa rubro-negra e nunca vivi nada parecido com aquela sensação. Por alguns segundos, parecia não haver distinção entre as diferentes classes sociais, etnias, idades. A nação rubro-negra em um só abraço: um gol de Romário. O Flamengo venceu o jogo, mas o resultado de 1 x 0 deu o título ao time argentino. E eu ganhei uma lição de vida e uma história para contar, de tempos em tempos...
Na semana que vem, mais Flamengo...


Pablo Laignier
porentrelinhas@yahoo.com.br

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