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Terça-feira, Março 27, 2007 Comments:

Sobre a arte da assimilação
ou
O rapaz que tudo aprendia nos filmes.


Quantas vezes na vida nós nos desesperamos pensando no pior, quando, na verdade, não se sabe o desfecho de uma determinada situação? Aliás, o interessante é notar que o próprio desfecho na maioria das vezes depende muito da nossa atitude com relação à própria situação.
Por exemplo: os conflitos. Quantos conflitos não poderiam ser resolvidos a partir de uma ponderação dos fatos que levasse ao diálogo franco e claro entre as partes envolvidas, com o intuito de resolução? Muitos, certamente...
Enquanto o rapaz se preparava para aquela aula vespertina, pensava no que deveria fazer. Largar a turma, talvez. Para que insistir naqueles alunos que não queriam estudar com ele? Enfim, situação difícil. Ele que costumava ser um dos professores adorados justamente por manter um equilíbrio entre a seriedade com que encarava o trabalho e a disposição para tornar este trabalho mais agradável para os alunos. Costumava ser visto como o professor "gente-boa", "tranqüilão", que não se ligava muito nas faltas, mas cujas provas não eram as mais fáceis de se fazer, pois exigiam reflexão.
No final das contas, ele, que buscava uma linguagem mais fácil para apresentar os conteúdos difíceis, acabava sendo considerado um ótimo professor, embora ele mesmo não soubesse muito bem o que isso significava. Para ser sincero, o rapaz considerava sua atual profissão um acidente de percurso.
Não que ele não gostasse nem um pouco da atividade que desempenhava; pelo contrário, sempre adorara estudar e adquirir novos conhecimentos, independentemente do assunto. Respirava o infinito intensamente, sempre... A ponto, inclusive, de pensar que costumava se perder nos meandros do saber mais do que deveria, perdendo o foco com relação às suas principais paixões.
Será que era professor por ser este o único palco à sua disposição no momento? Será que era somente por causa da grana? Ninguém enriquece sendo professor, mas é justo admitir que uma universidade paga melhor (e mais regularmente) do que suas inúmeras atividades artísticas. De qualquer forma, continuava a escrever gratuitamente, publicando na internet e onde mais fosse possível.
Continuava também a refletir sobre as coisas e, ainda que não de forma satisfatória (mas será que algo o deixaria satisfeito, algum dia?), a agir sobre as mesmas. Continuava a escrever, a compor, a criar... Continuava a sonhar.
Mas naquela manhã, a preocupação era outra: como melhorar o ensino e, mais do que isso, a conturbada relação com alunos que nem bem conhecia? Tratava-se de uma turma complicada, que fora dividida por ter se tornado muito grande. Chamaram-no para "quebrar um galho" e ele aceitou. Não queria, mas aceitou. Claro, não era de graça... Só que havia diversos pequenos fatos que, somados, levaram a uma situação por ele nunca antes experimentada: sucessivas reclamações dos alunos na coordenação de cursos.
Pensara em desistir, mas lembrou-se do filme "Rocky Balboa", no qual o personagem-título afirmava solenemente algo como: "na vida, não importa o quanto você saiba bater; mas o quanto você agüenta apanhar e seguir lutando." Pode parecer bobagem, mas o rapaz não desistiu. Concentrou-se nos aspectos geradores de conflito da situação e preparou-se para o próximo "round". Lembrou-se de que deveria modificar sua estratégia de ataque, mas não a ponto de perder suas próprias referências. Lembrou-se, mais do que tudo, de que não adiantava se desesperar.
Dessa forma, na primeira oportunidade, golpeou de forma precisa, mas não violenta. Estabeleceu uma conversa franca e clara. Foi ele mesmo, com suas qualidades e defeitos. E, ainda que não saiba o final da luta, passou a acreditar que é possível vencer...
Pensou, ainda, no que seria dele sem "Rocky Balboa"...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br




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