Toda semana um artigo novo sobre música.

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007 Comments:

De olhos bem fechados.

Ele fechava os olhos e só via ondas... Não conseguia entender o porquê do fato, mas também não chegara a considerar isso uma obsessão. Talvez, uma esquisitice. É isso: uma esquisitice! Mas parece que todos estão tão esquisitos no mundo atual que sua esquisitice o divertiu. Trouxe até um leve sorriso (mais imaginário do que real) à sua triste face.
Triste porque honesta. Triste porque bela. Triste porque rara. Quantas pessoas hoje em dia podem olhar-se no espelho sem ressentimentos ou cinismo? Ele não saberia dizer o quão ressentido estava consigo próprio; mas, cínico, definitivamente ainda não se havia tornado. Os princípios continuavam em seu âmago, teimando em deixá-lo só. Ninguém saberia como elogiá-lo por isso. Aliás, umas das coisas que mais ouvira nos últimos tempos (leia-se anos) é que era muito "bonzinho"; uma pessoa por demais "doce"; e que sofreria por isso...
O interessante é que se sentia justamente amargo. Agora, toda essa doçura com o mundo exterior havia feito dele alguém diferente. Por dentro, uma coisa; por fora, outra. Distúrbio bipolar??? Ainda não, esperava ele...
Mas em meio à tarde sombria, cinzenta, nublada, em que as cores do céu pareciam refletir seu estado de espírito, seus inúmeros projetos (simbólicos e concretos) pareciam se esvair como uma "turma sem alunos". As telas de computador se mostravam por demais efêmeras, assim como quase tudo... Constante não parecia ser nem o conhecimento estático dos livros, pois eles invariavelmente careciam de atualização regular.
Talvez, em meio a tudo isso, sem música tocando no momento em que se esperava ouvi-la, a imagem da onda vindo em sua direção de modo constante parecia ser o que de mais sólido haveria nesse mundo. Haveria, se a tarde não fosse de temporal. Daqueles que impedem que as ondas imaginárias se tornem reais; ou, melhor dizendo, surfáveis... Estava começando a descobrir, tardiamente, que nem toda onda é surfável. E que, infelizmente, nem toda ondulação marítima chega a ser considerada uma onda.
Porém, em sua mente, sempre que os olhos se fechavam, surgia aquela onda: nem grande demais, nem grande de menos... Do tamanho certo para suas parcas habilidades com o esporte. O interessante é que esta única onda parecia ser a solução de quase tudo, ainda que, notoriamente, não solucionasse nada. Mas é ótimo poder acreditar em alguma coisa. Alguma coisa simples e que transmita prazer. Algo que não precise de muita elaboração, muita projeção, muito tempo. Algo que surja do "nada" (ou do "tudo" que é a vida), rapidamente, e que se resolva por si só. Se a onda imaginária vier a se tornar real amanhã, por exemplo, será pegar ou largar... Será remar na hora certa, esperar aquele deslizamento suave que indica uma conexão diferente, onde o homem se sente levado pelas águas e pode, num piscar de olhos, ficar sobre a maré, de pé e potente, ignorando todo o resto do mundo até que aquele deslizar se acabe. Se tiver sorte, a onda o levará até a areia, num movimento espetacular, ainda que singelo.
E o melhor de tudo é que, caso caia ou não consiga entrar no ponto certo da onda, ele ainda terá outras chances, num intervalo de tempo suportável. Dificilmente as ondas boas vêm sozinhas...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

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