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Quarta-feira, Julho 12, 2006 Comments:

Por Entrelinhas na Copa:

"Zidane trágico" tem treze letras; "Itália é campeã" também tem treze...


E deu-se a tão esperada final da décima oitava Copa do Mundo de Futebol. No famoso estádio Olímpico de Berlim, Itália e França protagonizaram uma inédita combinação de times nesta fase da competição, levando-se em conta as edições anteriores do evento citado. Porém, há seis anos, essas mesmas seleções nacionais decidiram a Eurocopa, torneio continental de extrema importância para o futebol mundial.
A vitória na Eurocopa 2000 foi francesa, obtida com o já extinto Gol de Ouro, durante a prorrogação: 2 x 1 foi o resultado final, após gol de David Trezeguet. Desta vez, a história foi um pouco diferente...
Logo no início do jogo, houve uma colisão entre a cabeça do atacante francês Henry e o cotovelo do capitão e excelente defensor italiano Cannavaro, que quase custou a final para o primeiro. Após um susto inicial, Henry voltou a campo para continuar a partida. E houve pênalti marcado contra a Itália, cobrado de forma ousada pelo maestro Zinedine Zidane. Quase não entrou, após ter batido no travessão... Mas não há lugar para quase numa Copa do Mundo: França 1 x 0, aos cinco do primeiro tempo.
A Itália foi melhor daí por diante, durante todo o primeiro tempo e, perto dos vinte minutos de jogo, empatou o placar, com uma cabeçada certeira de Materazzi (o mesmo jogador que havia feito o pênalti minutos antes). O futebol, assim como a vida, é feito de uma sucessão de momentos ordinários e decisivos. O vilão de agora pode muito bem se tornar o herói de amanhã; ou mesmo de daqui a pouco. Essa final foi uma grande demonstração desse fato...
No segundo tempo, a partida se inverteu: só dava França. A Itália, que viera de uma prorrogação intensa e exaustiva contra a Alemanha, na partida pelas semifinais da competição, parecia esgotada. E Zidane continuava seu espetáculo particular, encontrando espaços no campo adversário e levando consigo os marcadores italianos.
Até que, como num passe de mágica, o herói francês tornou-se vilão: Zidane deu uma cabeçada no peito de Materazzi, o que lhe rendeu uma expulsão aos quatro minutos do segundo tempo de prorrogação. Em uma época na qual o Gol de Ouro já não existe, poderíamos chamar o ocorrido de Expulsão de Ouro. O que será que Zidane não faria nos cerca de dez minutos finais da partida, contra uma Itália guerreira, mas cansada? Será que ele não converteria seu pênalti na disputa decisiva, levando a decisão para uma sexta cobrança? O futuro do pretérito não se aplica ao futebol; portanto essas conjecturas não se fazem necessárias para essa análise. Mas me parece que aquela cabeçada do craque no brucutu, mais do que manchar uma carreira mágica, foi fatal para o resultado da partida. Zidane em campo é sempre Zidane: assim como também foram um dia Pelé, Maradona, Romário e outros poucos... O mesmo jogador que fizera dois dos três gols franceses na única final vencida pelos "Bleus" em Copas do Mundo, poderia muito bem ter feito seu segundo gol nessa decisão de 2006. Mas escolheu (mesmo que de forma impensada) tornar-se vilão...
E nas cobranças de pênaltis, houve precisão quase absoluta: nenhuma defesa; um único pênalti não convertido. Justamente o de David Trezeguet, outro herói que tornou-se vilão, ao cometer o Erro de Prata (porque não acabou imediatamente com a disputa, que seguiu por mais algumas cobranças, assim como era o Gol de Prata, utilizado em poucas competições até hoje).
Um destino trágico para quem sempre foi mágico, inclusive nesta Copa. Assim como nas antigas tragédias gregas, Zidane cumpriu um destino ao qual não se pode fugir, mesmo que se tente... Um destino pelo qual outros grandes heróis do futebol também já passaram, como Pelé (que deixou a Copa de 1962 por contusão e a de 66 por violência dos adversários) e Maradona (que foi expulso da Copa de 1994 por uso de substâncias proibidas pela FIFA).
Mais do que julgá-lo, o fato é que me entristece saber que Zidane não mais jogará futebol profissionalmente. Em minha vida, até hoje, tive o prazer de ver alguns jogadores efetuarem mágica em campo, regularmente, durante muitos anos: Zico, Romário, Bergkamp, Ronaldo e Zidane. Deveria ter prestado mais atenção em Maradona quando ele jogava, confesso, mas ninguém é perfeito...
De qualquer forma, houve motivos para alegria nessa final: um belo título da Itália, o mais sul-americano dos países europeus no que diz respeito ao futebol, com seus craques habilidosos e sua catimba irritante. Uma Copa irrepreensível do capitão Cannavaro, Pirlo, Buffon e companhia, que tornaram-se heróis em meio à tragédia pela qual vem passando o futebol italiano (afogado em esquemas torpes de corrupção e manipulação de resultados).
Além do mais, é bom ver um novo tetracampeão do mundo, o que deixa o Brasil em uma posição menos cômoda no cenário futebolístico internacional. A bola agora está mais equilibrada, até porque, em dezoito Copas disputadas, o título ficou nove vezes com os sul-americanos e nove vezes com os europeus... Quem será que vai desequilibrar a balança?


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

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