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Terça-feira, Julho 04, 2006 Comments:

Por Entrelinhas na Copa:

"Zidane é mágico" tem treze letras; "Brasil apático" também tem treze...


Existe um texto muito famoso na dramaturgia mundial, intitulado "Esperando Godot". Trata-se de uma peça montada inúmeras vezes, inclusive no Brasil. Esta obra-prima da dramaturgia do século XX foi escrita, primeiramente, em francês, no ano de 1951. Seu autor foi o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que viveu uma parte de sua vida em Paris e lutou pela resistência francesa contra a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Beckett obteve seu primeiro grande triunfo na dramaturgia planetária justamente com a peça citada. Com o passar dos anos, construiu uma trajetória importante, tendo recebido, em 1969, o Prêmio Nobel de Literatura. Faleceu em 1989 (nascera em 1906), sem nunca ter encontrado Godot.
Isto porque a peça "Esperando Godot" é sobre dois personagens que ficam à espera de alguém que nunca chega... Seria Deus? Uma vida idealizada? Seus sonhos nunca concretizados? Não sei; ninguém sabe ao certo. O objetivo da peça é, sem dúvida, deixar no ar a dúvida. Será que Godot existe? Isto não é o que mais importa; afinal, ele nunca chega... Trata-se de uma peça sobre a apatia de determinados seres humanos em situações específicas de suas vidas. Alguns, durante uma vida inteira...
Por que estou escrevendo tudo isso? Porque a última encenação deste brilhante texto europeu se deu, em livre adaptação fabricada pela nossa seleção, durante o jogo de sábado pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006. Cem anos após o nascimento de Beckett, os brasileiros resolveram homenagear o dramaturgo irlandês e o fizeram justamente em francês, língua na qual a peça fôra originalmente escrita.
Nossos super-heróis não voaram; as capas verdes amarelaram... Parecia, a todo momento, que a vitória contra a França era Godot, aquele a quem se espera com a fé cega dos ignorantes. É, pois os sábios conhecem a derrota e aprendem que o melhor dos times pode perder. Principalmente se não se empenhar. A vitória deve ser buscada. Não se deve esperar por ela. A França fez isso, buscando jogadas no meio-campo e lutando muito na defesa. Correram e desarmaram como nunca; venceram, como sempre...
É engraçado, pois a vitória francesa começou a se desenhar ainda durante o primeiro tempo. Mesmo assim, o Brasil não voltou com mais disposição para o segundo tempo. O técnico da nossa seleção não fez nenhuma alteração no intervalo, e o gol francês, finalmente, aconteceu. De repente, a partida entre Brasil e França ganhou contornos de tragédia grega, com seus destinos trágicos traçados de antemão e concluídos, invariavelmente, ao final da exibição.
Cinco ou seis jogadores brasileiros esperaram Godot na entrada da grande área, quando Zidane cruzou para Henry completar diante de Dida. Roberto Carlos estava ajeitando as meias ou sei lá o que mais... Me lembrei, ao rever o lance, de 1998. Não do jogo contra a França; mas justamente das quartas-de-final contra a Dinamarca, quando o mesmo Roberto Carlos tentou tirar uma bola da área brasileira com uma absurda bicicleta. O pneu de sua bicicleta furou em meio ao lance e o dinamarquês Laudrup fez o gol. Comemorou deitado, como uma famosa estátua dinamarquesa. Será que Roberto Carlos nada aprendeu desde aquela época?
Mas não é hora de procurar bodes-expiatórios. A responsabilidade pela derrota brasileira foi de todos os envolvidos naquela partida. Um Brasil sem brio, sem brilho, apático. Um Brasil sem conjunto, sem luta coletiva, sem liderança. Um Brasil fora de sua melhor forma física, técnica e tática. Um Brasil que esperava por uma vitória que não viria, por uma exibição espetacular que não viria, por uma revanche que não viria, por uma quarta final consecutiva em Copas do Mundo que não viria, por um hexacampeonato que não viria. Pelo menos, por enquanto...
Continuo brasileiro e orgulhoso de muita coisa que nosso lindíssimo futebol produziu ao longo da história das Copas; mas não nessa última. O Brasil foi decepcionante: não por ter perdido de 1 x 0 para a França nas quartas-de-final, principalmente num dia em que um dos maiores craques do futebol mundial, Zinedine Zidane, jogou a melhor partida de sua carreira; mas por ter esperado Godot durante quase noventa minutos, tendo obrigado o goleiro francês Bartez a fazer uma única defesa durante toda a partida. É muito pouco para uma seleção que possui, em seu elenco, alguns dos melhores jogadores do mundo. E, como na peça de Beckett, o final foi triste para grande parte do público: Godot não apareceu...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

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