Nota:
Tenho que admitir: estou em falta com meus leitores. Embora não realize um trabalho objetivando atingir à massa, é interessante como há uma certa fidelidade por parte de pessoas que se identificam com minhas idéias e escritos sobre música e, vez por outra, retornam a este espaço virtual para ler, comentar, sugerir, etc... Fiquei umas três semanas sem escrever, devido a vários outros compromissos importantes (alguns, inclusive, ligados ao meu trabalho como músico e pesquisador musical). Espero sinceramente preencher esta lacuna com artigos que mereçam à leitura atenta de vocês nas próximas semanas. O primeiro, logo abaixo, é especialíssimo. Espero continuar revendo-os por estas linhas...
Pablo Laignier
"No Novo Tempo...
...Apesar dos perigos." Seja na letra da bela canção "Novo Tempo", fruto da sólida parceria entre Ivan Lins e Vitor Martins; seja na voz do próprio Ivan, que a tornou conhecida. Esta canção fala sobre coisas importantes, como a esperança e a maturidade. E estes versos não me saíam da cabeça, enquanto assistia à reunião na última quinta-feira, dia 04 de novembro de 2004, no Palácio Capanema, no centro da minha cidade natal, o Rio de Janeiro.
A reunião era aberta, entre Músicos e o Ministério da Cultura e serviu para que NÓS Músicos colocássemos ao Ministro Gilberto Gil (que também é Músico) o fruto do trabalho que uma comissão de Músicos vêm desenvolvendo há mais de um ano e meio aqui no Rio de Janeiro, e que já se espalhou por outros Estados brasileiros. À frente desta comissão, nomes como Ivan Lins, Francis Hime, Ana Terra, Cristina Saraiva e Dalmo Motta.
Todas as reuniões que antecederam à de quinta-feira foram abertas à NOSSA classe, ou seja, aos Músicos. Tive o prazer de estar em três delas, inclusive às duas últimas, realizadas na semana passada no Mistura Fina. E foi destas discussões entre Músicos que saiu a proposta apresentada (e muito bem apresentada) por Dalmo Motta e Cristina Saraiva ao Ministro Gilberto Gil e à equipe do Ministério da Cultura. O projeto das Câmaras Setoriais está sendo aprovado e deve ser iniciado já em 2005. Nestas Câmaras Setoriais, representantes de todas as etapas da cadeia produtiva relativa à Cultura do nosso país se sentarão juntos à mesa de reuniões para discutirem assuntos importantes e tomar decisões junto ao Ministério da Cultura. Haverá, na Câmara Setorial da Música, pelo menos um representante de cada segmento da cadeia produtiva da Música Brasileira.
Ou seja, entre representantes do grande mercado (gravadoras), das associações de arrecadação de direitos autorais, de produtores musicais, etc, teremos ao menos um (e ainda há a possibilidade real de que seja mais de um) representante da NOSSA Classe, indicado por NÓS Músicos.
Estou escrevendo com tantas letras maiúsculas, pois se trata realmente de um "Novo tempo, apesar dos castigos", no qual "Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos / Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer..." Afinal, já era hora de estarmos sentados, Músicos Novos e Músicos bastante Experimentados; Músicos pouco conhecidos (como eu, por exemplo) e Músicos Consagrados, Músicos Eruditos e Músicos Populares, Professores de Música, Músicos Independentes, Músicos do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Minas Gerais...Músicos do Brasil!!!
Ouvi atentamente aos discursos de Músicos como Antônio Adolfo, Lobão, Tibério Gaspar, Wagner Tiso, Carlinhos Antunes, Amílson Godoy e tantos outros, para perceber que "No novo tempo, apesar dos perigos / Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta / Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver..."
Fiquei com lágrimas nos olhos, enquanto Ivan Lins (escolhido em votação democrática pelos Músicos Cariocas presentes nas reuniões do Mistura Fina como nosso representante) discursava de forma emocionada sobre a importância deste encontro e de toda a NOSSA Luta. Porque, "No novo tempo, apesar dos castigos / De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga / Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer..."
Havia muita coisa a ser dita neste encontro com o Ministro. Acredito, sinceramente, que as coisas mais importantes foram ditas. Foi apenas o ponto de partida para a próxima reunião a ser marcada ainda em dezembro e, daí em diante, NÓS Músicos teremos seis meses para nos dividirmos em cerca de doze Grupos de Trabalho a respeito dos assuntos considerados por NÓS essenciais no que diz respeito à NOSSA profissão. Pois, "No novo tempo, apesar dos perigos / De todos os pecados, de todos enganos, estamos marcados / Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver..."
Estes Grupos de Trabalho ainda podem sofrer modificações, já que a discussão é permanente e só está se iniciando (com a adesão maior de outros Estados, pelo menos). Mas admito que fiquei emocionado também ao ouvir, entre os doze Grupos de Trabalho apresentados, o de Produção Independente (sugerido por mim na primeira das duas reuniões no Mistura Fina e criado após uma discussão saudável e democrática já na segunda reunião no próprio local). Embora o nome inicial fosse "Música Independente", isto é o que menos importa. O que realmente importa para mim no momento é que "No novo tempo, apesar dos castigos / Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas / Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer..."
Depois de uma reunião importantíssima, como a de quinta-feira, com o ministro Gilberto Gil, ainda tive o prazer de me sentar à mesa de um bar no centro com outros jovens Músicos, dentre eles, o compositor de sambas Leandro Fregonesi e a cantora Simone Lial, discutir pontos de vista com o pesquisador Egeu Laos (do Instituto Jacob do Bandolim), conversar com amigos residentes de Sampa que não via há meses, como Carlos Zimbher (presidente da Cooperativa de Música do Estado de São Paulo, da qual fui um dos fundadores em 2003, quando por lá morava). Estavam lá também, na mesma mesa, a Cristina Saraiva, o Dalmo Motta, o Carlinhos Antunes, o Ivan Lins, etc. Se eu esqueci de alguém, peço desculpas. Porque, o que importa mesmo, é que "No novo tempo, apesar dos perigos / A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça / Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver..."
O próprio Ivan Lins nos disse, em meio a brindes e conversas, que havia nos levado àquele bar, pois há cerca de trinta anos foi lá, naquelas mesmas mesas aonde nos sentamos, que aconteceram reuniões importantes de conteúdo político nas quais ele também esteve envolvido e que trouxeram algumas melhorias para NÓS Músicos.
Fico pensando que talvez as próximas gerações de Músicos se beneficiem mais até do que NÓS dos frutos que estamos plantando. Ainda assim, é hora do plantio, pois a terra nunca esteve tão fértil. E, além disso, neste novo tempo, "Pra que nossa esperança seja mais que a vingança / Seja sempre um caminho que se deixa de herança".
Até a semana que vem...
Pablo Laignier.