Toda semana um artigo novo sobre música.

Sexta-feira, Setembro 07, 2007 Comments:

Dançando ao som do tempo...

O relógio aproximava-se da hora certa, aquela na qual o rapaz havia nascido. Talvez pela última vez utilizasse este termo em seus textos. Afinal, as denominações devem mudar conforme o tempo. O andar da carruagem já anuncia uma nova fase. Tudo novo, de novo (como diria o poeta-cantor)... E ele, que também já se vira poeta, cantor, ator, amante, namorado, marido, etc, sentia-se exatamente da mesma forma de sempre: apaixonado pela vida e por sua diversidade. Queria celebrar cada instante, com amigos passados e futuros, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, novos amigos estariam em seu círculo. Se havia algo que cultivara alegremente neste tempo de vida, eram as pessoas. E se havia algo do qual se arrependia, era justamente não ter todas ainda em seu aconchegante círculo fraterno. Onde estariam aquelas pessoas importantes de outrora, que participaram ativamente de seus momentos preciosos no passado? Enfim, o círculo gira, sem início, fim ou qualquer garantia de prêmio durante o caminho. Mas prêmios estavam espalhados por todo o caminho. Cada beijo ou abraço, cada olhar e poesia, cada canção composta e peça encenada, cada estudo dedicado e competição vencida, cada medalha de ouro, prata ou bronze na sua gaveta (dentro da caixinha de madeira dada pelo seu saudoso avô paterno), cada memória revisitada, cada pessoa que se foi, cada lágrima que escorreu, cada perda assimilada, cada perda não assimilada, cada reflexão inconclusa, cada autor descoberto, cada autor relido, cada melodia impactante, cada solo improvisado, cada aplauso recebido, cada sorriso dado, cada dificuldade enfrentada, cada letra analisada, cada dúvida surgida, cada resposta não dada, cada gol perdido, cada bola na trave, cada palco conquistado, cada leito conhecido, cada cada em cada qual...
Ele pensou seriamente na aula que acabara de ministrar, nas coisas que disse perto das onze da noite. Não liberou a turma de pouco mais de cinco alunos e orgulha-se, enquanto escreve, de poder escrever isso e saber que está dizendo a verdade. Explicou aos alunos que, se eles estavam ali, assim como ele, deveriam aproveitar aquela oportunidade e ir adiante no conteúdo da disciplina. E que conteúdo!!! Leitura e discussão sobre consumo, comunidade, vínculo, etnia... Tudo isso faltando apenas três horas para os seus trinta anos. Ao final, a aluna que pediu para que ele liberasse a turma respondeu à sua pergunta sobre a validade daquela aula. A resposta foi afirmativa. Sim, valeu o "ser-em-comum". Valeu estar ali.
Ele ficou pensando sobre o que havia aprendido nestas três décadas. Quase nada, além de saber que, apesar de menos ingênuo, sua pureza com relação às aspirações que o levaram até ali não havia mudado. Ainda pensava em como faria para mudar o mundo. De certa maneira, fazia isso todos os dias, transformando suas idéias em prática, na medida do seu possível. Ainda não havia tornado-se confortavelmente anestesiado, como na letra de uma de suas músicas preferidas. Ainda pensava que o esforço por fazer "da melhor maneira possível" era o que movia seus atos.
Mas sabia também que uma parte importante de si estava um pouco obliterada, escondida, esperando o momento de voltar à cena. Sabia, contudo, que isso poderia até tardar, mas não deixaria de acontecer. Afinal, a gente é o que é... De qualquer modo, por mais estranhos e tortos que os caminhos da vida possam parecer, eles são bem-vindos... Até porque a vida é o único caminho...
Parabéns para você...


Pablo Laignier.

Terça-feira, Maio 22, 2007 Comments:

...O Flamengo no mundo.

No último artigo, escrevi a respeito de minha ida ao estádio do Maracanã em 1995, há quase doze anos. Agora, volto ao mesmo local, no tempo presente. Tive que voltar a freqüentar o estádio, após uma indesculpável ausência de anos, por razões óbvias: como poderia alguém como eu, um amante do futebol, não estar de quando em vez em seu maior templo, que fica localizado justamente na minha própria e amada cidade? Nem todo mundo possui um privilégio como este, pensei eu, dando-me conta de que, atualmente, posso me dar ao luxo de pagar a entrada e assistir a uma partida do Flamengo.
E não poderia haver ocasião mais propícia: a final do campeonato estadual de 2007. Na verdade, a minha volta ao Maracanã não foi motivada pela final; ocorreu algumas semanas antes, quando estive presente ao jogo Vasco x Botafogo, na tentativa de ver o milésimo gol de Romário. Mas isso é assunto para outro artigo. Foi nesse jogo, porém, que tive saudades de ver meu Mengão novamente, ao vivo, "in loco".
Uma coisa é assistir a um jogo pela televisão; outra, completamente diferente, é assistir a um jogo num estádio como o Maracanã, com toda a mística que o gigante monumental exibe após décadas de grandes lances e de grandes gols. E a final seria uma oportunidade enorme de me reconciliar com o Rubro-negro: time campeão por vocação; de torcida imensa, popular, diversificada. Existe uma massa Rubro-negra? Diria que existe uma nação Rubro-negra. Nação esta sem Estado, pós-moderna, na qual se confundem sotaques e etnias, classes sociais e idades distintas. Flamengo de Leônidas, Dida, Zico, Sávio. Flamengo campeão do mundo em 1982, com Leandro, Júnior, Andrade, Adílio e Nunes. Flamengo campeão do mundo em 1994, com Aldair, Jorginho, Leonardo, Zinho e Bebeto. Flamengo de todos os tempos, de todos os templos, de todos os títulos.
Flamengo, até então, 28 vezes campeão carioca. Até então, pois agora já são 29 títulos estaduais, além dos cinco brasileiros, dois da Copa do Brasil, uma Copa Libertadores, um Mundial Interclubes e tantos outros... Flamengo guerreiro, combativo até o fim. Flamengo limitado, superando-se contra a "vedete" do campeonato. É impressionante como os críticos e a imprensa em geral encantaram-se com o time do Botafogo. Tenho a impressão de que não assistiram ao primeiro turno do estadual. Havia um equilíbrio em campo: se, por um lado, o Botafogo exibia um futebol mais "atraente", o Flamengo mostrou-se um time brioso, lutando pelo título até o fim do segundo jogo. Nada de entregar os pontos; nada de render-se antes da hora; nada de admitir a impossibilidade de gols de um ataque mais fraco e desfalcado. Nunca pensei que escreveria isso: mas Obina anda fazendo falta.
A verdade é que o Flamengo precisa de um ataque melhor. A verdade é que o Flamengo possui também, assim como o Botafogo de Dodô e Lucio Flavio, jogadores que podem fazer a diferença: Renato e Renato Augusto. Eu estava lá, vendo a primeira partida da final, torcendo pelo Mengão, ao vivo, após mais de uma década. Eu estava aqui, vendo a segunda partida pela televisão, torcendo pelo Mengão, como sempre. Sabia que tínhamos grandes possibilidades de obter mais este título. Também sabia que não seria fácil. Dois jogos emocionantes. Dois placares idênticos: 2 x 2. Dois pênaltis defendidos pelo goleiro Rubro-negro Bruno.
Enfim, eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Segunda-feira, Maio 07, 2007 Comments:

Se faltasse...

...O Flamengo no mundo! Certamente, eu teria um desgosto profundo. O que seria de mim sem o Flamengo, uma das minhas grandes paixões. Tenho certeza de que qualquer pessoa tem as suas... Mas nunca fui tradicionalmente um torcedor de Maracanã. Fui algumas vezes quando criança, mais algumas na adolescência e, quando já estava tomando gosto por tudo aquilo, por aquela bagunça saudável... Desisti!
A violência afastou-me do estádio aos domingos. Lembro-me como se fosse hoje. O ano era 1995. Mais especificamente dezembro. Final da agora extinta Supercopa dos Campeões da Libertadores: Flamengo x Independiente. O time argentino havia vencido a partida de ida em casa por 2 x 0 e agora o nosso mengão precisava ganhar pelo mesmo número de gols.
Foi um dia especial para mim, por diversas razões. Recebi um telefonema que, para o bem e para o mal, mudaria minha vida de forma radical e sem volta... Mas, além disso, estava com meu grande amigo Roberto Vinícius. Caramba, há quanto tempo!!! Fui um adolescente muito feliz. Quase não tinha do que reclamar e, em uma fase da vida onde muitos têm dificuldade em se aceitar como indivíduos, eu achava tudo o máximo. Gostava das meninas e daquela leve sensação de descoberta, quando não se sabe quase nada e tudo que acontece passa a ser uma novidade estrondosa. Adorava dançar nas discotecas do Tijuca Tênis Clube, aos domingos, ou do Imperator, no méier; além das maravilhosas matinês do Resumo da Ópera, na Lagoa, do Reggae Rock Café, em São Conrado, ou do Well`s Fargo, no Leblon. Nesta última, a presença do D.J. Marlboro já se fazia notar. 1993, 94, 95, 96... E lá se foram os anos, escorrendo como grãos de areia e deixando uma sensação gostosa por entre os dedos da alma.
Mas o que importa neste artigo é aquela tarde de dezembro, um dia de semana (quarta-feira, muito provavelmente), quando Vinny Boy chegou lá em casa. Éramos amigos de farra, daqueles que arranjam uma festa diferente a cada sábado. E quando não havia nenhuma de amigos conhecidos, saíamos sem destino e penetrávamos nas festas das vizinhanças. Se algum dia eu resolver contar nossas histórias, renderia um bom livro... O fato é que chegamos cedo ao Maraca, infestado de rubro-negros desde a entrada. A capacidade do estádio naquela época já não era a inicial. Algumas reformas reduziram a capacidade do Maraca para cerca de 100.000 torcedores. Eram tantos flamenguistas querendo entrar para apoiar o time na final, que a polícia teve que abrir os portões do estádio Mário Filho, deixando que todos entrassem de graça! Nem precisei mostrar o meu ingresso. O pai do Vinícius, que estava com a gente, resolveu voltar para casa, temendo o pior.
Apesar do tumulto para entrar, éramos jovens e intrépidos, tínhamos um time com retrospecto irretocável na competição (antes das finais, o Flamengo havia jogado seis vezes e vencido todas), o melhor jogador do mundo no ano anterior jogava com a nossa camisa (ele mesmo, Romário) e era jogo de um time só. Não haveria tumulto com a torcida adversária, pois o anel do Maracanã estava todo tomado pelo vermelho-e-preto.
Durante o jogo, quase brigamos com alguns torcedores do nosso próprio time, pois não havia espaço entre as pessoas na arquibancada e os ânimos estavam exaltados. Mas a paz se fez por completo quando o baixinho de pés mágicos marcou o único gol da partida, a nossa favor. Foi uma experiência religiosa... De repente, estávamos todos nos abraçando: brancos, negros, ricos, pobres, velhos, novos. Éramos realmente uma só massa rubro-negra e nunca vivi nada parecido com aquela sensação. Por alguns segundos, parecia não haver distinção entre as diferentes classes sociais, etnias, idades. A nação rubro-negra em um só abraço: um gol de Romário. O Flamengo venceu o jogo, mas o resultado de 1 x 0 deu o título ao time argentino. E eu ganhei uma lição de vida e uma história para contar, de tempos em tempos...
Na semana que vem, mais Flamengo...


Pablo Laignier
porentrelinhas@yahoo.com.br

Domingo, Abril 29, 2007 Comments:

Travessia do Fortes.

Só me lembro de ter chegado à sala dos professores mais cedo do que de costume. A carona do argentino causou-me um bem descomunal. Não enfrentei o trânsito de sempre, pois o caminho que ele fez era totalmente diferente do trajeto do 701. Foi bom perceber que sempre há alternativas para nossos infortúnios cotidianos...
O fato é que o Fortes estava lá. Esperando-me, como toda semana. Temos uma espécie de contrato não-verbalizado para as quintas-feiras. Eu o espero pela manhã. Ele me espera à noite. E, por favor, não coloquem maldade nestas palavras!!! Afinal, o que seria de cada um de nós sem os amigos? Aliás, certos ambientes são por demais opressores e necessitam de uma conversa afetuosa (nem sempre séria) para aliviar as tensões do dia-a-dia.
Descemos juntos ao terceiro andar do shopping-center, para a minha refeição noturna. Sim, pessoas, eu janto!!!!! Ou vocês pensam que é possível encarar mais duas turmas otimizadas de barriga vazia? É importante deixar claro que não janto como deveria, pois uma praça de alimentação é sempre um lugar pouco aprazível. Além disso, não chamo aquilo que como regularmente por lá de comida... É algo próximo disso.
Conversamos durante a minha refeição, enquanto ele também comia alguma coisa (um salgado, para ser mais exato). O papo foi ótimo, como sempre. Falamos de tudo um pouco: sobre as aventuras e desventuras de ser professor universitário. Falamos coisas seríssimas, mas também um monte de bobagens... Estávamos, enfim, prontos para mais uma longa jornada noite adentro.
Passamos mais uma vez pela sala dos professores, no quinto andar, para pegar as nossas coisas: mochilas, livros, pautas, etc. Era hora de voltar ao trabalho. Lembrei-me de que precisava dizer a alguns alunos dele sobre a aprovação de um projeto de pesquisa meu pela universidade. Havia selecionado estes alunos anteriormente e precisava acertar com eles a data e o horário de nossa primeira reunião. Como três dos quatro alunos que formariam a minha equipe de pesquisa estariam na sua aula, pedi permissão ao Fortes para conversar com eles no início de sua aula. "Sem problemas" - disse ele - e fomos juntos para a sala 728, na qual se daria a tal aula.
Qual não foi a nossa surpresa ao chegar lá e perceber, através do aquário de vidro da porta, que havia uma espécie de baile ocorrendo no interior da respectiva sala! Seria algum tipo de ritual maldito? Difícil dizer... Mas tenho que admitir uma coisa: é no mínimo estranho deparar-se com uma cena como aquela. A sala estava escura, com as luzes apagadas, e uma roda de senhoras desempenhava um tipo sinistro de dança, comparável a uma ciranda maléfica.
Comecei a rir, por dentro e por fora. Mas a minha reação foi algo banal perto da cara do Fortes. Ele, admiravelmente metódico, correto, rígido até em suas normas de trabalho, ficou perplexo com aquela cena de transe dionisíaco. Um ritual estranho ocorria no interior da sala em que ele deveria lecionar.
É claro que consegui falar com os alunos, que se amontoavam no aquário diante da referida cena. Todos muito perplexos, mas nenhum tão perplexo quanto o Fortes... A cara dele foi impagável! Ele murmurou alguma coisa para mim, em tom irônico, mas o conjunto de fatores se apresentava de forma tão bizarra que eu nem consegui ouvi-lo direito.
Fui para a minha aula, na sala 750, pensando em como a situação seria contornada. Pensava também em como aquele momento se tornaria significativo em nossas conversas futuras. Afinal, o que seria da vida sem um pouco de dança? Aliás, pretendo nunca descobrir que espécie de aula era aquela...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Domingo, Abril 22, 2007 Comments:

Sopro sem direção.

"A vida é um sopro de desejo sem direção única." Esta frase (que até onde eu me lembre não me foi dita por ninguém) não cessa de martelar no interior da minha mente. Queria eu, realmente, ser um homem sábio, para compreender por completo minhas próprias idiossincrasias... Mas não sou.
A maioria das pessoas também não é. Viemos ao mundo para errar, em todos os sentidos. Somos errantes, como cavaleiros sem destino, ainda que sejamos também aqueles que simplesmente cometem erros. Alguns desses erros são básicos, repetidos até...
Eu, por exemplo, procuro não repetir os mesmos erros. Sou tão criativo que consigo sempre inventar erros novos. Erros mais charmosos, mais sofisticados e, até mesmo, mais tolos... Erros inéditos!!! Prefiro as coisas que se apresentam a mim pela primeira vez, pelo menos no que diz respeito a este assunto. Porque, no caso dos acertos (que até eu sou capaz de cometer de quando em vez), sou o mestre da repetição. Posso até citar um exemplo concreto. Quase toda noite eu bebo, antes de dormir, um copo de leite com duas colheres de Ovomaltine. Admito que a quantidade de Ovomaltine possa até variar. Três colheres num dia que merece um final mais doce; uma única colher num dia cujo gosto do leite se faça mais necessário. Leite integral, diga-se de passagem... Nada contra o leite desnatado, ou semidesnatado. Até bebo, de vez em nunca... Mas aquele leite integral daquela marca (cujo nome não pronunciarei por não estar recebendo um centavo sequer) é fantástico! Contei!!!
Sou um homem realmente simples. Apesar de a vida adulta estar querendo me transformar em alguém que se preocupa com vinhos e roupas, carros e investimentos, coisas materiais em geral; tenho cada vez mais certeza que o que importa de verdade são as pessoas. Sinto saudades de muitas, pois meu coração tem espaço de sobra. Ainda que esteja se tornando frio... Mas assisti a um filme na semana passada e me dei de presente algumas lágrimas. Sabe, não sinto saudades somente das pessoas. Sinto, muitas vezes, saudades de mim. Principalmente nos últimos tempos. Tenho me olhado no espelho e já não me reconheço por completo. Diversas circunstâncias me têm levado a viver uma vida que não me parece ser a que eu tinha há alguns anos. E realmente não é. O fato é que eu sinto muitas saudades do tempo em que eu chorava com mais freqüência: por pena, por remorso, pela simples emoção de chorar. Chorava de alegria e de tristeza. Enfim, chorava...
Hoje, infelizmente, meu peito anda com a mania de sufocar, estrangular, estraçalhar e até mesmo esconder todas as minhas lágrimas. A ponto de eu me perguntar se já teria gasto toda a minha cota de choro por essa vida. Por favor, não me entendam mal... Dizem que homens não choram. Talvez, só aos meninos seja permitido chorar. E talvez seja disso que eu sinta mais falta: do menino que havia em mim até muito pouco tempo atrás. Como qualquer menino, era mais sincero do que deveria; mais emotivo do que deveria; mais inconstante do que deveria; mais criativo do que deveria; mais energético do que deveria; mais feliz do que deveria. Aliás, como é bom ser feliz, não é mesmo? Houve uma época em que eu acreditava na felicidade como um ideal alcançável. Depois, passei a acreditar que a vida era um conjunto de momentos, e que a felicidade eram os momentos felizes, ainda que descontínuos. Hoje, não sei bem no que acredito. Mas sei que a felicidade tem a ver com desejo... Aquele mesmo, que sopra sem direção única...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Terça-feira, Março 27, 2007 Comments:

Sobre a arte da assimilação
ou
O rapaz que tudo aprendia nos filmes.


Quantas vezes na vida nós nos desesperamos pensando no pior, quando, na verdade, não se sabe o desfecho de uma determinada situação? Aliás, o interessante é notar que o próprio desfecho na maioria das vezes depende muito da nossa atitude com relação à própria situação.
Por exemplo: os conflitos. Quantos conflitos não poderiam ser resolvidos a partir de uma ponderação dos fatos que levasse ao diálogo franco e claro entre as partes envolvidas, com o intuito de resolução? Muitos, certamente...
Enquanto o rapaz se preparava para aquela aula vespertina, pensava no que deveria fazer. Largar a turma, talvez. Para que insistir naqueles alunos que não queriam estudar com ele? Enfim, situação difícil. Ele que costumava ser um dos professores adorados justamente por manter um equilíbrio entre a seriedade com que encarava o trabalho e a disposição para tornar este trabalho mais agradável para os alunos. Costumava ser visto como o professor "gente-boa", "tranqüilão", que não se ligava muito nas faltas, mas cujas provas não eram as mais fáceis de se fazer, pois exigiam reflexão.
No final das contas, ele, que buscava uma linguagem mais fácil para apresentar os conteúdos difíceis, acabava sendo considerado um ótimo professor, embora ele mesmo não soubesse muito bem o que isso significava. Para ser sincero, o rapaz considerava sua atual profissão um acidente de percurso.
Não que ele não gostasse nem um pouco da atividade que desempenhava; pelo contrário, sempre adorara estudar e adquirir novos conhecimentos, independentemente do assunto. Respirava o infinito intensamente, sempre... A ponto, inclusive, de pensar que costumava se perder nos meandros do saber mais do que deveria, perdendo o foco com relação às suas principais paixões.
Será que era professor por ser este o único palco à sua disposição no momento? Será que era somente por causa da grana? Ninguém enriquece sendo professor, mas é justo admitir que uma universidade paga melhor (e mais regularmente) do que suas inúmeras atividades artísticas. De qualquer forma, continuava a escrever gratuitamente, publicando na internet e onde mais fosse possível.
Continuava também a refletir sobre as coisas e, ainda que não de forma satisfatória (mas será que algo o deixaria satisfeito, algum dia?), a agir sobre as mesmas. Continuava a escrever, a compor, a criar... Continuava a sonhar.
Mas naquela manhã, a preocupação era outra: como melhorar o ensino e, mais do que isso, a conturbada relação com alunos que nem bem conhecia? Tratava-se de uma turma complicada, que fora dividida por ter se tornado muito grande. Chamaram-no para "quebrar um galho" e ele aceitou. Não queria, mas aceitou. Claro, não era de graça... Só que havia diversos pequenos fatos que, somados, levaram a uma situação por ele nunca antes experimentada: sucessivas reclamações dos alunos na coordenação de cursos.
Pensara em desistir, mas lembrou-se do filme "Rocky Balboa", no qual o personagem-título afirmava solenemente algo como: "na vida, não importa o quanto você saiba bater; mas o quanto você agüenta apanhar e seguir lutando." Pode parecer bobagem, mas o rapaz não desistiu. Concentrou-se nos aspectos geradores de conflito da situação e preparou-se para o próximo "round". Lembrou-se de que deveria modificar sua estratégia de ataque, mas não a ponto de perder suas próprias referências. Lembrou-se, mais do que tudo, de que não adiantava se desesperar.
Dessa forma, na primeira oportunidade, golpeou de forma precisa, mas não violenta. Estabeleceu uma conversa franca e clara. Foi ele mesmo, com suas qualidades e defeitos. E, ainda que não saiba o final da luta, passou a acreditar que é possível vencer...
Pensou, ainda, no que seria dele sem "Rocky Balboa"...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br





Terça-feira, Março 13, 2007 Comments:

Nota: o texto abaixo já foi escrito por mim há algum tempo e em um contexto bem específico. Porém, como não chegou a ser publicado anteriormente, coloco agora nestas linhas, com pequenas modificações.


A Medida do Mundo.

Lembro-me da primeira vez que saiu um artigo meu no "JornalECO" (jornal universitário produzido pelos alunos da minha antiga turma de faculdade). Era o ano de 1995 e eu fui chamado por alguns colegas da classe (tratava-se de uma equipe composta por umas dez pessoas, no máximo) para escrever sobre... Música, é claro. Escrevia a coluna "Semínimas", na qual abordava fatos referentes ao mundo da música.
Utilizando-me de fortes opiniões pessoais (afinal, era uma coluna assinada...) e de um texto leve (apesar dos muitos parênteses com digressões intermináveis...), minha coluna foi uma das coisas mais comentadas daquela primeira edição do jornal independente produzido pelos (à época) calouros do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). Algumas pessoas adoravam o que eu escrevia; outras me achavam um cara metido e superficial. De qualquer forma, a coluna não passou em branco e me rendeu ótimas discussões nos corredores da universidade. Na segunda edição, tive o prazer de não só escrever a coluna "Semínimas", mas também realizar pessoalmente uma entrevista com o excelente músico (e atual ministro) Gilberto Gil, antes de um show que o mesmo iria fazer na Concha Acústica da UERJ. Mais uma vez, muitos elogios aos textos; assim como críticas...
Depois disso, algumas divergências internas entre a equipe, aliadas à minha displicência com relação a qualquer assunto que não fosse exclusivamente o de redigir a minha coluna, fizeram com que eu me desligasse do jornal (que lançou somente mais uma edição com péssima repercussão entre os estudantes dos outros períodos e nunca mais foi editado novamente). Meu próximo artigo seria publicado no jornal oficial da ECO, editado sob a supervisão de um professor bastante rígido. Apurei e redigi uma reportagem sobre problemas internos da própria universidade e o professor me criticou bastante, dizendo que eu não podia fazer determinadas afirmações sobre a diretoria da faculdade, etc. Mesmo assim, o artigo foi publicado e repercutiu entre alunos de diferentes períodos.
Após muitas outras experiências jornalísticas, que vão dos escritos econômicos publicados no breve período em que fiz parte do Jornal do Commercio até os textos sobre turismo que recentemente redigi para uma empresa, fiquei muito feliz ao ser convidado pela aluna Paula Estrella para fazer este artigo. Ser publicado e lido por meus alunos durante a Semana da Comunicação da universidade em que leciono foi algo que me deixou entusiasmado. Afinal, alguns de vocês conviveram comigo por seis meses (outros já estão quase completando um ano, mesmo que de forma intermitente). E por que não escrever algo exclusivamente para vocês, falar de coisas que acredito e que procuro dizer em nossas aulas? A distância entre professor e aluno é algo que nunca cultivei. Não me entendam mal, mas prefiro a proximidade. Já até tive alguns problemas com isso, mas não abro mão de determinados princípios.
Há muita coisa que não sei (que bom, não é?) e não tenho problemas em admitir isto a meus alunos. Mas sei que o papel do professor universitário é importantíssimo, na medida em que ele lida com indivíduos cuja formação pessoal é uma realidade (vocês já são adultos...), mas cuja formação profissional ainda está no início. Apenas lecionar um conteúdo específico é pouco, posto que todos os conteúdos programáticos das disciplinas teóricas estão impressos em livros que podem ser adquiridos em diversas livrarias ou até mesmo sem que seja preciso sair de casa, através de sites. Assim, a forma como este conteúdo será abordado em sala de aula e o modo como o professor fará com que o mesmo se torne interessante para os alunos é o que, no meu modo de entender, "separa o joio do trigo".
Continuo tão polêmico como há dez anos, embora a vivência adquirida neste período tenha me feito administrar melhor (assim espero...) as minhas idiossincrasias. Na vida, e não apenas na sala de aula, espero não cometer novamente os erros do passado. Deste modo, haverá espaço para os erros (e também acertos) do futuro...
Para finalizar este texto que nem bem comecei (mas já está ficando longo...), deixo para vocês a letra de uma das minhas canções, composta em 2002 e intitulada "A Medida do Mundo". Esta música foi feita em um momento de dificuldades pessoais e financeiras e expressa um pouco daquilo que penso a respeito da vida e que procuro passar aos meus alunos:


"A vaidade destrói castelos
A verdade constrói a luta
A vontade se faz arguta
A virtude não quer só zelos

A remessa não está para peixe
A promessa se faz no feixe
Da transversa que corta o talo
Vamos nessa, não há atalho

Pois quem versa, o faz por dentro
Na conversa está o alento
Interessa a quem tem intento
Já que a pressa não pára o vento

Sem estrada não há espinho
Sem charada não há caminho
Sem espada, a palavra é ninho
Sem ter nada, se toma um vinho
Barato, vagabundo
E a cabeça dói de fato

Certamente,
Alguém já lhe falou
Mas no dia você
Ainda não poderia entender
Que a verdade
Não é só um conceito rondando ao redor
Afinal, você quer o melhor
(Quem não quer, não é?)

A história o faz voar
A memória lhe traz um lar
Sua glória não quer ficar
Acessória como um colar

A razão vem, lhe passa um pito
A emoção será sempre apito
Avisando o momento certo
Permeando o sermão do veto

Quem disfarça não mostra o rosto
Quem diz tudo não sente o gosto
Quem desfere a esmo é tolo
Quem despede-se quer consolo

E se a vida não estiver doce
A saída não é a foice
Indevida é esta fossa
A medida do mundo é nossa
Como um traço tão profundo
Que fazemos no espaço

Certamente
A esperança virá para nos embalar
Nos mostrar que há beleza no ar
E a saudade
Se traduz num suspiro que deve passar
Pois há muito ainda para chegar..."



Esta canção já está gravada e faz parte do meu próximo CD, que pretendo lançar este ano.

Até a semana que vem...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br



Terça-feira, Março 06, 2007 Comments:

Fragmentos de uma tarde de verão.

Gostaria de ser uma daquelas pessoas inconseqüentes, que agem por instinto. Mas não consigo. A racionalidade parece inerente ao meu modo de estar neste mundo. Sempre penso milhões de vezes a respeito de tudo: presente, passado, futuro. E, obviamente, possuo alguns pensamentos recorrentes, como o que deu origem às linhas que agora escrevo.
Muitas vezes me pego pensando se a vida é realmente feita por cada um de nós ou se estamos à deriva em um universo que conspira em alguns momentos a nosso favor; em outros, contra. E, é claro, conspira mais a favor de algumas pessoas do que de outras. Nem todos têm a mesma sorte na vida. E a própria palavra sorte também possui o sentido de destino. "Qual foi a sua sorte naquele episódio?" quer dizer: "o que aconteceu, afinal?".
Quem viu o filme "Forrest Gump", do diretor Robert Zemeckis, sabe do que estou falando. Neste, a meu ver, genial longa-metragem, uma das cenas mais bonitas é justamente a que Forrest Gump chora diante do túmulo de sua amada. Esta cena acontece bem no final do filme, e o personagem (interpretado magnificamente por Tom Hanks) se pergunta se quem estava certa era sua mãe, que dizia que a vida é como uma caixa de chocolates sortidos, pois você nunca sabe exatamente o que vai encontrar; ou o seu amigo tenente, interpretado por Gary Sinise, para quem a vida de cada indivíduo já estava traçada desde o início. Acaso ou destino? Forrest, ao indagar-se a respeito, conclui que, para ele, trata-se de um pouco dos dois.
Bem, não quero colocar esta questão como uma pergunta absoluta, mas tenho me perguntado, admito, nos últimos tempos, o quanto de nossas vidas somos nós mesmos que traçamos. Não sei se você já se deu conta de que muitos dos planos que fez tornaram-se coisas completamente diferentes do que você mesmo imaginara anteriormente. Mesmo quando algo sai muito melhor do que esperávamos, ainda assim, trata-se do não-planejado, ou seja, de algo que você não previra com clareza. Até que nesses casos, quando as coisas dão certo, esquecemos do plano original. Mas quando acontece o contrário fica aquela impressão no ar de que poderíamos ter feito algo diferente.
Algumas pessoas até procuram esquecer os planos anteriores, para não sofrer muito. E foi assim que eu ouvi a história daquele rapaz, já com cara de senhor (apesar de ser mais novo do que eu), naquela tarde de verão. Estávamos descendo a serra, em direção ao Rio de Janeiro. Eu, obviamente, era o "amigo-caroneiro", sentado no banco de trás. Ambos estávamos com nossas namoradas e a conversa, repentinamente, tomou a direção da música. Acho que eu estava falando do meu interminável novo CD, ou do anterior, não me lembro bem, e perguntei algo a respeito da música dele. Bem, só sei que o rapaz é talentoso, compõe, canta e toca (de forma competente) belas canções... E vive de advocacia. Trata-se de um trabalho sério, rentável. Afinal, ele vai casar. Não digo que ele esteja errado, não. Acho que a vida foi quem errou, no caso dele e de muitos outros colegas e amigos meus.
Talvez pelo fato de eu ter sempre transitado por esse meio artístico (principalmente da música e do teatro, mas também da dança, da Tv, etc), conheço muitas pessoas que venceram; muitas que estão lutando ainda por um lugar ao sol; muitas que já desistiram. Mas é interessante notar que um dom nunca desiste completamente de um artista. Por mais que ele tente se enfiar em um trabalho "estável", em uma vida "normal", parece que aquela voz interna continua a buzinar incessantemente ao longo dos anos.
De qualquer modo, a minha pergunta não foi respondida. Nem será...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007 Comments:

De agora em diante...

As tecnologias digitais estão promovendo uma grande discussão a respeito da ética nos meios de comunicação. Quase todo dia é possível encontrar uma matéria na imprensa escrita a respeito da difusão de arquivos sonoros, textuais ou imagéticos, de forma a nos perguntarmos o que é, de fato, a "pirataria digital".
Mais do que desdobrar este tema específico, parece-me realmente importante ressaltar aqui, nestas poucas linhas, o quão indefinido é o destino da informação no mundo digital, que vem sendo chamado por nós (do campo da Comunicação Social) de ciberespaço. O fluxo informacional gerado por este espaço virtual que emerge da interconexão dos computadores em nível mundial, como bem diria o francês Pierre Lévy, reflete toda a gama de emoções e atitudes humanas largamente difundidas no que o brasileiro Muniz Sodré chama de real-histórico (o mundo como o conhecemos de há muito...).
Ou seja, tanto se pode perceber o quanto a internet continua a difundir a comunicação de massa (de um emissor para muitos receptores) e o capitalismo tardio (através de grandes cadeias de lojas on-line que nos permitem usar e abusar dos cartões de crédito, efetuando rapidamente uma compra e empurrando a longo prazo uma dívida, como diria o polonês Zygmunt Bauman), quanto podemos vislumbrar novas perspectivas políticas a partir das tecnointerações que fazem surgir comunidades virtuais e grupos de discussão eletrônica. A interação possibilitada pelas novas tecnologias digitais é do tipo difusa e indeterminada (um para um, um para muitos, muitos para muitos, muitos para um, etc).
Assim, a quantidade não só de informações, mas de possibilidades informacionais é quase irrestrita. Quanto mais os computadores aumentam sua capacidade de captação, manipulação, transmissão e armazenamento de dados, novas e mais sofisticadas formas de uso do ciberespaço se apresentam a nós, cabendo a nós mesmos decidirmos sobre a ética envolvida em seu uso. Discutir não só a respeito da "pirataria digital", mas, sobretudo, da "pedofilia digital" (e outros "ia"s bem famosos) se faz necessário, já que, mesmo sendo uma rede descentralizada, é preciso haver punição para o crime virtual (que é mais real do que pode parecer em princípio). Uma foto pornográfica com uma criança de cinco anos foi, antes de ser difundida pela rede, produzida no real-histórico; e é neste que deve ser tratada como crime. Aliás, diga-se de passagem, as novas mídias já fazem parte do real-histórico, mesmo sob os brados pós-modernos de que a nossa era seria pós-histórica.
Apoiado no pensamento do brilhante italiano Umberto Eco, finalizo este breve texto retomando de forma atualizada sua famosa distinção dicotômica dos anos sessenta do século passado: mais do que sermos "apocalípticos ou integrados" diante desse novo mundo virtual de possibilidades, devemos operar na medida humana, sem "conceitos-fetiche" (genéricos) ou análises superficiais. Em alguma medida nos valemos do ciberespaço e, portanto, dele devemos cuidar, assim como da nossa cidade e das nossas próprias casas, refletindo sobre os efeitos dos nossos atos e assumindo a responsabilidade por eles.


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007 Comments:

De olhos bem fechados.

Ele fechava os olhos e só via ondas... Não conseguia entender o porquê do fato, mas também não chegara a considerar isso uma obsessão. Talvez, uma esquisitice. É isso: uma esquisitice! Mas parece que todos estão tão esquisitos no mundo atual que sua esquisitice o divertiu. Trouxe até um leve sorriso (mais imaginário do que real) à sua triste face.
Triste porque honesta. Triste porque bela. Triste porque rara. Quantas pessoas hoje em dia podem olhar-se no espelho sem ressentimentos ou cinismo? Ele não saberia dizer o quão ressentido estava consigo próprio; mas, cínico, definitivamente ainda não se havia tornado. Os princípios continuavam em seu âmago, teimando em deixá-lo só. Ninguém saberia como elogiá-lo por isso. Aliás, umas das coisas que mais ouvira nos últimos tempos (leia-se anos) é que era muito "bonzinho"; uma pessoa por demais "doce"; e que sofreria por isso...
O interessante é que se sentia justamente amargo. Agora, toda essa doçura com o mundo exterior havia feito dele alguém diferente. Por dentro, uma coisa; por fora, outra. Distúrbio bipolar??? Ainda não, esperava ele...
Mas em meio à tarde sombria, cinzenta, nublada, em que as cores do céu pareciam refletir seu estado de espírito, seus inúmeros projetos (simbólicos e concretos) pareciam se esvair como uma "turma sem alunos". As telas de computador se mostravam por demais efêmeras, assim como quase tudo... Constante não parecia ser nem o conhecimento estático dos livros, pois eles invariavelmente careciam de atualização regular.
Talvez, em meio a tudo isso, sem música tocando no momento em que se esperava ouvi-la, a imagem da onda vindo em sua direção de modo constante parecia ser o que de mais sólido haveria nesse mundo. Haveria, se a tarde não fosse de temporal. Daqueles que impedem que as ondas imaginárias se tornem reais; ou, melhor dizendo, surfáveis... Estava começando a descobrir, tardiamente, que nem toda onda é surfável. E que, infelizmente, nem toda ondulação marítima chega a ser considerada uma onda.
Porém, em sua mente, sempre que os olhos se fechavam, surgia aquela onda: nem grande demais, nem grande de menos... Do tamanho certo para suas parcas habilidades com o esporte. O interessante é que esta única onda parecia ser a solução de quase tudo, ainda que, notoriamente, não solucionasse nada. Mas é ótimo poder acreditar em alguma coisa. Alguma coisa simples e que transmita prazer. Algo que não precise de muita elaboração, muita projeção, muito tempo. Algo que surja do "nada" (ou do "tudo" que é a vida), rapidamente, e que se resolva por si só. Se a onda imaginária vier a se tornar real amanhã, por exemplo, será pegar ou largar... Será remar na hora certa, esperar aquele deslizamento suave que indica uma conexão diferente, onde o homem se sente levado pelas águas e pode, num piscar de olhos, ficar sobre a maré, de pé e potente, ignorando todo o resto do mundo até que aquele deslizar se acabe. Se tiver sorte, a onda o levará até a areia, num movimento espetacular, ainda que singelo.
E o melhor de tudo é que, caso caia ou não consiga entrar no ponto certo da onda, ele ainda terá outras chances, num intervalo de tempo suportável. Dificilmente as ondas boas vêm sozinhas...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Quarta-feira, Julho 12, 2006 Comments:

Por Entrelinhas na Copa:

"Zidane trágico" tem treze letras; "Itália é campeã" também tem treze...


E deu-se a tão esperada final da décima oitava Copa do Mundo de Futebol. No famoso estádio Olímpico de Berlim, Itália e França protagonizaram uma inédita combinação de times nesta fase da competição, levando-se em conta as edições anteriores do evento citado. Porém, há seis anos, essas mesmas seleções nacionais decidiram a Eurocopa, torneio continental de extrema importância para o futebol mundial.
A vitória na Eurocopa 2000 foi francesa, obtida com o já extinto Gol de Ouro, durante a prorrogação: 2 x 1 foi o resultado final, após gol de David Trezeguet. Desta vez, a história foi um pouco diferente...
Logo no início do jogo, houve uma colisão entre a cabeça do atacante francês Henry e o cotovelo do capitão e excelente defensor italiano Cannavaro, que quase custou a final para o primeiro. Após um susto inicial, Henry voltou a campo para continuar a partida. E houve pênalti marcado contra a Itália, cobrado de forma ousada pelo maestro Zinedine Zidane. Quase não entrou, após ter batido no travessão... Mas não há lugar para quase numa Copa do Mundo: França 1 x 0, aos cinco do primeiro tempo.
A Itália foi melhor daí por diante, durante todo o primeiro tempo e, perto dos vinte minutos de jogo, empatou o placar, com uma cabeçada certeira de Materazzi (o mesmo jogador que havia feito o pênalti minutos antes). O futebol, assim como a vida, é feito de uma sucessão de momentos ordinários e decisivos. O vilão de agora pode muito bem se tornar o herói de amanhã; ou mesmo de daqui a pouco. Essa final foi uma grande demonstração desse fato...
No segundo tempo, a partida se inverteu: só dava França. A Itália, que viera de uma prorrogação intensa e exaustiva contra a Alemanha, na partida pelas semifinais da competição, parecia esgotada. E Zidane continuava seu espetáculo particular, encontrando espaços no campo adversário e levando consigo os marcadores italianos.
Até que, como num passe de mágica, o herói francês tornou-se vilão: Zidane deu uma cabeçada no peito de Materazzi, o que lhe rendeu uma expulsão aos quatro minutos do segundo tempo de prorrogação. Em uma época na qual o Gol de Ouro já não existe, poderíamos chamar o ocorrido de Expulsão de Ouro. O que será que Zidane não faria nos cerca de dez minutos finais da partida, contra uma Itália guerreira, mas cansada? Será que ele não converteria seu pênalti na disputa decisiva, levando a decisão para uma sexta cobrança? O futuro do pretérito não se aplica ao futebol; portanto essas conjecturas não se fazem necessárias para essa análise. Mas me parece que aquela cabeçada do craque no brucutu, mais do que manchar uma carreira mágica, foi fatal para o resultado da partida. Zidane em campo é sempre Zidane: assim como também foram um dia Pelé, Maradona, Romário e outros poucos... O mesmo jogador que fizera dois dos três gols franceses na única final vencida pelos "Bleus" em Copas do Mundo, poderia muito bem ter feito seu segundo gol nessa decisão de 2006. Mas escolheu (mesmo que de forma impensada) tornar-se vilão...
E nas cobranças de pênaltis, houve precisão quase absoluta: nenhuma defesa; um único pênalti não convertido. Justamente o de David Trezeguet, outro herói que tornou-se vilão, ao cometer o Erro de Prata (porque não acabou imediatamente com a disputa, que seguiu por mais algumas cobranças, assim como era o Gol de Prata, utilizado em poucas competições até hoje).
Um destino trágico para quem sempre foi mágico, inclusive nesta Copa. Assim como nas antigas tragédias gregas, Zidane cumpriu um destino ao qual não se pode fugir, mesmo que se tente... Um destino pelo qual outros grandes heróis do futebol também já passaram, como Pelé (que deixou a Copa de 1962 por contusão e a de 66 por violência dos adversários) e Maradona (que foi expulso da Copa de 1994 por uso de substâncias proibidas pela FIFA).
Mais do que julgá-lo, o fato é que me entristece saber que Zidane não mais jogará futebol profissionalmente. Em minha vida, até hoje, tive o prazer de ver alguns jogadores efetuarem mágica em campo, regularmente, durante muitos anos: Zico, Romário, Bergkamp, Ronaldo e Zidane. Deveria ter prestado mais atenção em Maradona quando ele jogava, confesso, mas ninguém é perfeito...
De qualquer forma, houve motivos para alegria nessa final: um belo título da Itália, o mais sul-americano dos países europeus no que diz respeito ao futebol, com seus craques habilidosos e sua catimba irritante. Uma Copa irrepreensível do capitão Cannavaro, Pirlo, Buffon e companhia, que tornaram-se heróis em meio à tragédia pela qual vem passando o futebol italiano (afogado em esquemas torpes de corrupção e manipulação de resultados).
Além do mais, é bom ver um novo tetracampeão do mundo, o que deixa o Brasil em uma posição menos cômoda no cenário futebolístico internacional. A bola agora está mais equilibrada, até porque, em dezoito Copas disputadas, o título ficou nove vezes com os sul-americanos e nove vezes com os europeus... Quem será que vai desequilibrar a balança?


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Terça-feira, Julho 04, 2006 Comments:

Por Entrelinhas na Copa:

"Zidane é mágico" tem treze letras; "Brasil apático" também tem treze...


Existe um texto muito famoso na dramaturgia mundial, intitulado "Esperando Godot". Trata-se de uma peça montada inúmeras vezes, inclusive no Brasil. Esta obra-prima da dramaturgia do século XX foi escrita, primeiramente, em francês, no ano de 1951. Seu autor foi o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que viveu uma parte de sua vida em Paris e lutou pela resistência francesa contra a ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Beckett obteve seu primeiro grande triunfo na dramaturgia planetária justamente com a peça citada. Com o passar dos anos, construiu uma trajetória importante, tendo recebido, em 1969, o Prêmio Nobel de Literatura. Faleceu em 1989 (nascera em 1906), sem nunca ter encontrado Godot.
Isto porque a peça "Esperando Godot" é sobre dois personagens que ficam à espera de alguém que nunca chega... Seria Deus? Uma vida idealizada? Seus sonhos nunca concretizados? Não sei; ninguém sabe ao certo. O objetivo da peça é, sem dúvida, deixar no ar a dúvida. Será que Godot existe? Isto não é o que mais importa; afinal, ele nunca chega... Trata-se de uma peça sobre a apatia de determinados seres humanos em situações específicas de suas vidas. Alguns, durante uma vida inteira...
Por que estou escrevendo tudo isso? Porque a última encenação deste brilhante texto europeu se deu, em livre adaptação fabricada pela nossa seleção, durante o jogo de sábado pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 2006. Cem anos após o nascimento de Beckett, os brasileiros resolveram homenagear o dramaturgo irlandês e o fizeram justamente em francês, língua na qual a peça fôra originalmente escrita.
Nossos super-heróis não voaram; as capas verdes amarelaram... Parecia, a todo momento, que a vitória contra a França era Godot, aquele a quem se espera com a fé cega dos ignorantes. É, pois os sábios conhecem a derrota e aprendem que o melhor dos times pode perder. Principalmente se não se empenhar. A vitória deve ser buscada. Não se deve esperar por ela. A França fez isso, buscando jogadas no meio-campo e lutando muito na defesa. Correram e desarmaram como nunca; venceram, como sempre...
É engraçado, pois a vitória francesa começou a se desenhar ainda durante o primeiro tempo. Mesmo assim, o Brasil não voltou com mais disposição para o segundo tempo. O técnico da nossa seleção não fez nenhuma alteração no intervalo, e o gol francês, finalmente, aconteceu. De repente, a partida entre Brasil e França ganhou contornos de tragédia grega, com seus destinos trágicos traçados de antemão e concluídos, invariavelmente, ao final da exibição.
Cinco ou seis jogadores brasileiros esperaram Godot na entrada da grande área, quando Zidane cruzou para Henry completar diante de Dida. Roberto Carlos estava ajeitando as meias ou sei lá o que mais... Lembrei-me, ao rever o lance, de 1998. Não do jogo contra a França; mas justamente das quartas-de-final contra a Dinamarca, quando o mesmo Roberto Carlos tentou tirar uma bola da área brasileira com uma absurda bicicleta. O pneu de sua bicicleta furou em meio ao lance e o dinamarquês Laudrup fez o gol. Comemorou deitado, como uma famosa estátua dinamarquesa. Será que Roberto Carlos nada aprendeu desde aquela época?
Mas não é hora de procurar bodes-expiatórios. A responsabilidade pela derrota brasileira foi de todos os envolvidos naquela partida. Um Brasil sem brio, sem brilho, apático. Um Brasil sem conjunto, sem luta coletiva, sem liderança. Um Brasil fora de sua melhor forma física, técnica e tática. Um Brasil que esperava por uma vitória que não viria, por uma exibição espetacular que não viria, por uma revanche que não viria, por uma quarta final consecutiva em Copas do Mundo que não viria, por um hexacampeonato que não viria. Pelo menos, por enquanto...
Continuo brasileiro e orgulhoso de muita coisa que nosso lindíssimo futebol produziu ao longo da história das Copas; mas não nessa última. O Brasil foi decepcionante: não por ter perdido de 1 x 0 para a França nas quartas-de-final, principalmente num dia em que um dos maiores craques do futebol mundial, Zinedine Zidane, jogou a melhor partida de sua carreira; mas por ter esperado Godot durante quase noventa minutos, tendo obrigado o goleiro francês Bartez a fazer uma única defesa durante toda a partida (já nos acréscimos do segundo tempo). É muito pouco para uma seleção que possui, em seu elenco, alguns dos melhores jogadores do mundo. E, como na peça de Beckett, o final foi triste para grande parte do público: Godot não apareceu...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Sábado, Julho 01, 2006 Comments:

Por Entrelinhas na Copa:

"Brasil x França" tem treze letras.


Quando eu era pequeno, minha mãe teve que gradear todas as janelas do nosso antigo apartamento, na Usina (região peculiar da Tijuca, bairro localizado no Rio de Janeiro, e onde se localiza o Alzirão, assunto para outro artigo). O motivo era muito simples: eu queria voar! Pensava ser o Super-homem e andava de um lado para outro com uma capa nas costas.
Em verdade, eu possuía duas capas: uma vermelha, exatamente como a do personagem dos quadrinhos; e uma verde, que nunca entendi muito bem o porquê, mas sempre fôra minha preferida. Hoje, está tudo muito claro em minha mente: apesar do meu sobrenome francês (Laignier), até meus olhos são da cor de nossa bandeira...
Sou brasileiro com orgulho e, é claro, com muitas críticas a nosso país. Sei que muitos pensam que a Copa é o ópio do povo (o futebol, na verdade), que nos tornamos alienados, etc e tal. Prefiro acreditar que não; cada um fala de si e só eu sei de tudo que já fiz em minha vida (e faço todos os dias...). Posso garantir que, entre trabalhos voluntários, causas políticas, atitudes filantrópicas e a batalha do dia-a-dia, há um equilíbrio entre ambas na minha existência até aqui. Só não abro mão, como alguns, dos prazeres, da emoção, da intensidade, da mágica. E o futebol vem me trazendo tudo isso há anos, desde quando eu pensava ser capaz de voar...
Aliás, ainda sou capaz de voar em épocas de Copa do Mundo. Me sinto uma espécie de super-herói que (com minhas camisas amarelas e verdes) ajuda, espiritualmente, a nossa seleção em suas batalhas. E tenho que admitir que estou com medo; não da França, mas de nós mesmos. Está na hora do Brasil entrar em campo como campeão, mostrando todo o seu futebol. Já não há mais espaço para erros. A Argentina já voltou para casa e, infelizmente, não teremos a sonhada e inédita final sul-americana na Europa.
Acredito que a França fará seu melhor jogo na Copa, por três razões principais: o time deles jogou bem contra a Espanha; pode ser o último jogo profissional de Zidane; eles estarão jogando contra o Brasil. Em verdade, qualquer time se supera contra a nossa seleção, pois quem não o faz, leva para casa um enorme chocolate. O Brasil é a seleção a ser vencida e a França sabe disso.
Há uma igualdade muito grande nos confrontos anteriores entre as duas seleções. Em Copas, por exemplo, a França não leva exatamente um vantagem sobre o Brasil, já que os números são quase iguais. Só que números precisam ser analisados historicamente, contextualizados e, fazendo isso, percebemos que: Brasil e França se enfrentaram três vezes em Copas; cada seleção venceu uma única vez; houve um empate. O que desequilibraria esta estatística em favor da França seria o critério de desempate daquele jogo de 1986: A França venceu nos pênaltis, seguindo adiante na competição. Só que as vitórias de cada seleção foram pela mesma diferença de gols (três). Em 1998, a França venceu em casa e o Brasil teve problemas extra-campo que afetaram o desempenho da nossa seleção durante a partida. Em 1958, sim, o Brasil venceu e convenceu, pois a França era a favorita para vencer a Copa e tinha em campo Just Fontaine, o maior artlheiro em uma mesma edição de Copas, com 13 gols.
O Brasil não só passeou em campo, como venceu, pela única vez na história, uma Copa na Europa. Nenhum país não-europeu conseguiu repetir esta façanha novamente... Pois somos os únicos não-europeus ainda nesta competição de 2006. Temos a melhor seleção do mundo no momento. Além disso, "França perderá" tem treze letras. E, como se isso não bastasse, percebo que o Brasil é a única seleção com jogadores capazes de voar. E os Ronaldos farão isso hoje, como Super-homens que são. Já preparei a minha capa verde...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Quarta-feira, Junho 28, 2006 Comments:

Por Entrelinhas na Copa:

O maior de todos.


Sempre tive uma certa nostalgia de um tempo em que não vivi: o dos grandes craques do passado e, particularmente, o período histórico que compreende as três primeiras Copas do Mundo conquistadas pela nossa seleção: Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Rivelino, etc. Não tive o prazer de viver essa época e assistir, ao vivo, as partidas disputadas por esses jogadores extraordinários. Vivenciei uma parte da carreira de Zico; mas, infelizmente, não o vi levantar uma Copa do Mundo.
Pensando bem, até que não posso me queixar de todo, posto que Romário fez alguns dos meus dias ficarem mais felizes, intensos e brilhantes durante o período 93/94 (e até mesmo depois disso). Com relação ao Rei do Futebol, porém, o máximo que o tempo me permitiu foi sair mais cedo do colégio para ver o jogo realizado em comemoração aos cinqüenta anos de Pelé, em 1990. Matei aula de desenho geométrico, do professor Ezequiel, para ver aquele jogo em casa, como pedia a ocasião. É claro que não foi a mesma coisa... Torcia para Pelé fazer uma jogada de gênio, lembrando-me a todo momento que aquele senhor de meio século, aposentado da função de atleta profissional havia 13 anos, estava jogando em meio a jogadores profissionais no auge da forma física.
Até que me deparei com os Meninos do Samba, ainda na fase da família Scolari, na Copa de 2002. Aquele time simplesmente venceu as sete partidas que disputou durante a Copa, tornando-se a única seleção a repetir o feito do próprio Brasil, em 1970, de vencer todos os jogos de uma Copa.
Além disso, Ronaldos são abundantes nesta seleção: o Fenômeno despontando em 1993, aos dezesseis anos de idade, ao marcar cinco gols em uma mesma partida oficial do Campeonato Brasileiro; o Gaúcho despontando em 1999, aos dezenove anos de idade, "chapelando" o tetracampeão Dunga em um "grenal" inesquecível, além de marcar um dos gols mais bonitos da história da Copa América, em sua primeira partida pela seleção brasileira principal.
Esses garotos hoje, passados alguns anos, já obtiveram, juntos, cinco títulos de melhor jogador do mundo pela FIFA: três do Fenômeno, dois do Gaúcho. Além disso, outros garotos também foram surgindo pelo mesmo caminho. Kaká, marcando dois gols em uma final pelo São Paulo; Robinho, dando títulos ao Santos. Adriano, com muita força física e uma impressionante capacidade de marcar gols em jogos decisivos.
Trata-se de uma seleção com muito futebol, muitas vitórias, muitos gols e muita alegria. O Samba tocado por eles, ainda em campo, logo após a final da Copa das Confederações de 2005, fez o mundo se curvar em sua direção. Muitas comparações foram feitas pela imprensa antes da Copa do Mundo de 2006 começar. Por exemplo, entre esta seleção e a de 70. Dei-me conta, então, de que já não preciso olhar para o passado que não vivi, pois estou tendo a oportunidade de acompanhar a história de algumas futuras lendas do esporte.
Uma delas se chama Ronaldo, o Fenômeno. E, mais do que falar sobre o jogo contra Gana, me interessa registrar aqui o que amanhã estampará as capas dos jornais do mundo inteiro: o maior de todos estava em campo. Ronaldo fez o primeiro gol do Brasil na partida (cujo placar foi 3 x 0 para a nossa seleção), tornando-se o maior goleador em Copas do Mundo. Foi seu décimo-quinto gol em quatro edições da competição, passando a frente do alemão Gerd Müller exatamente no mesmo palco em que o artilheiro alemão escreveu seu nome na história das Copas. Mais até do que isso, em sua própria casa. Cabe ressaltar, ainda, que o Fenômeno marcou seus quinze gols em apenas três Copas, pois em 1994 ele não chegou a entrar em campo pela nossa seleção.
Muitos comentaristas esportivos reclamavam a ausência de Robinho no jogo desta tarde. Machucado, o jovem craque de 22 anos não poderia pedalar e servir os companheiros na partida contra Gana. Pois não é que o Fenômeno, ao receber uma bola açucarada de Kaká, correu em direção à grande área de Gana, pedalou na frente do goleiro com sua perna direita, driblando em seguida o arqueiro ganense com a perna esquerda, para novamente tocar com a direita, de leve, deixando que a bola fosse lentamente morrer na rede adversária... Ronaldo pintou hoje, em campo, uma obra-prima para ser exposta, por anos a fio, na galeria das Copas do Mundo.
Que venham os franceses...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

Terça-feira, Junho 27, 2006 Comments:

Por Entrelinhas na Copa:

"Hora da verdade" tem treze letras.


A partir de agora, não há mais meias palavras: quem perder um jogo na Copa do Mundo volta para casa. Aliás, assistindo a jogos das oitavas-de-final, pude comprovar que times como a Holanda voltaram mais cedo. Realmente, não é hora para brincadeiras...a não ser que estejamos falando sobre o Brasil.
Afinal de contas, o que se espera da nossa seleção agora é justamente isto: brincadeiras!!!! Ninguém mais admite, após a goleada (de virada, cabe ressaltar) contra o Japão, que o Brasil volte a jogar sem brilho. Não se trata de estabelecer placares dilatados, pois o número de gols não reflete necessariamente a qualidade do futebol jogado em uma partida. Trata-se, sim, de reafirmar o óbvio e espantar os urubus de plantão: vencer e convencer, pelo menos até a final. Digo isto, pois não se espera do Brasil menos do que a defesa do atual título mundial.
A seleção brasileira esteve nas últimas três finais de Copas do Mundo, vencendo duas. Uma, inclusive, com Parreira como técnico. Além disso, é a atual campeã mundial. Como se tudo isso não fosse suficiente, é também a atual campeã continental, tendo vencido a Copa América de 2004 com um time reserva. E é, também, a atual campeã da Copa das Confederações, realizada no ano passado na própria Alemanha. Nesta, utilizou um time híbrido, com alguns titulares e alguns reservas.
Pois vamos relembrar o que aconteceu na hora da verdade dessas competições citadas no parágrafo anterior. Para começar, lembremos da última Copa do Mundo, realizada simultaneamente em dois países, Coréia do Sul e Japão. O Brasil enfrentou a Bélgica, nas oitavas-de-final, vencendo por 2 x 0, com gols de Rivaldo e do Fenômeno. Os gols demoraram a sair, mas não houve maiores sustos. Nas quartas-de-final, o time da Inglaterra deu mais trabalho, ao sair na frente, em falha indescritível do zagueiro Lúcio. Porém, havia um Ronaldinho Gaúcho em campo, que serviu Rivaldo no primeiro gol e fez o segundo, da virada, de forma ainda mais indescritível, colocando o Brasil nas semi-finais e seu próprio nome na história das Copas. Na fase seguinte, o Brasil pegou novamente a Turquia, seleção que já fôra adversária da nossa durante a primeira fase da Copa de 2002. O gol, mais uma vez, demorou a sair, vindo do bico da chuteira do Fenômeno e colocando o Brasil em mais uma final de Copa do Mundo. Sendo que, pela primeira vez na história da competição, os dois maiores vencedores se enfrentariam: Brasil x Alemanha. Vencemos e convencemos, por 2 x 0, sendo ambos do Fenômeno. Um mata-mata sem prorrogações, com quatro vitórias para ninguém botar defeito. Naquela Copa, começavam a surgir os Meninos do Samba.
Já na Copa América de 2004, disputada no Peru, a hora da verdade consagrou alguns jogadores que hoje fazem parte de nossa seleção, como o atacante Adriano e o goleiro Júlio César. Mesmo com um time reserva, o Brasil sagrou-se campeão ao derrotar, em seqüência, México (4 x 1), Uruguai (0 x 0) e Argentina (2 x 2). Os dois últimos jogos foram decididos nos pênaltis. Também, com o time reserva...
A Copa das Confederações de 2005, realizada na Alemanha, mostrou ao mundo o poder da seleção brasileira. Com um time híbrido, no qual se firmaram os laterais Cicinho e Gilberto, o Brasil derrotou a Alemanha (3 x 2) e a Argentina (4 x 1). A final foi histórica; o Brasil atropelou seu maior rival futebolístico, no mesmo cenário onde agora busca mais um título mundial. O artilheiro Adriano mais uma vez voltou a brilhar, além de Kaká, Robinho e Ronaldinho Gaúcho.
E se me perguntarem quais são as chances de Gana no jogo de amanhã, digo de bate-pronto: as mesmas de qualquer outro time do mundo atualmente (talvez à exceção de Argentina, Alemanha, Itália e França), ou seja, ínfimas. Gana não pode simplesmente vencer o jogo; o Brasil é que pode perder para si mesmo, com sua fogueira de vaidades, além da pressão por resultados e espetáculo. O Brasil, se entrar em campo como sabemos que pode, passeia amanhã de forma alegre, ao som de samba.
Afinal, são dezoito Copas do Mundo contra apenas uma. Nossa camisa amarela pesa cinco títulos mundiais e quase duzentos gols marcados na maior competição de todo o futebol mundial. Além disso, o Fenômeno já desencantou; "Gana eliminada" tem 13 letras; e, o que é melhor: a "hora da verdade" começou e, além de também ter 13 letras, sempre foi amiga da amarelinha (principalmente nos últimos anos)...


Pablo Laignier.
porentrelinhas@yahoo.com.br

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